segunda-feira, 22 de junho de 2015

A ilustre casa de Ramires - Eça de Queirós

A ilustre casa de Ramires
Eça de Queirós
Ed. Lello & Irmão
ISBN: não tem

Esta obra é mesmo muito bonita. É nítido que pertence à um Eça de Queirós mais maduro. Acompanhamos a trajetória de Gonçalo Ramires, o Fidalgo da Torre, o último da linhagem da família mais antiga de Portugal - até mais, pois já existiam antes de Portugal existir. A construção e desenvolvimento da personagem e do entorno é magistral.
Uma característica interessante é que Gonçalo Ramires, por vários motivos, precisa escrever alguns capítulos da história de sua família, os quais se mesclam com a própria narrativa e, logicamente, acabam interferindo em sua vida. É realmente tocante.
A conclusão da obra é emocionante e forte, especialmente para nós, que temos ligação tão forte com Portugal. Um de meus livros prediletos.

sábado, 20 de junho de 2015

Alves e cia. - Eça de Queirós

Alves e cia.
Eça de Queirós
Ed. Lello & Irmão
ISBN: não tem

Este pequeno livro é bem pouco conhecido, sendo quase que um rascunho, uma crônica. É, porém, bem divertido. A história não é nada extraordinária, mas a forma como é narrada vale a leitura, até porque é leitura breve e traz uma faceta ligeira, cheia de ação, que raramente associamos à Eça de Queiros.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

A Jangada de Pedra - José Saramago

A Jangada de Pedra
José Saramago
Ed. Cia das Letras
ISBN: 8585095792

Este livro parte de uma idéia que é, a meu ver, incrível. A península Ibérica se “descola” da Europa, ao mesmo tempo que eventos estranhos ocorrem com as personagens. Ao longo da obra, as personagens vão sempre se relacionando com os movimentos da península. A idéia é muito boa e, a meu ver, se desenvolve muito bem, embora eu não seja grande fã de romances “metafóricos”. Porém, a partir do último terço, parece que a idéia começa a se esgotar. O final parece incrivelmente improvisado, quase rascunhado. Parece que a idéia original era tão instigante que seria impossível um desfecho à altura. Assim, desaponta um pouco.

terça-feira, 19 de maio de 2015

A Cidade e as Serras - Eça de Queirós

A Cidade e as Serras
Eça de Queirós
Ed. Ática
ISBN: 9788508145652


Tremendo clássico. Esta é uma edição despretensiosa e funcional, provavelmente voltada aos estudantes ou vestibulandos pois traz o tradicional “vida e obra”, de autoria de Álvaro Cardoso Gomes - o qual, aliás, é muito bem escrito e interessante.
Este livro foi o último escrito por Eça de Queirós, sendo que o final não foi inteiramente revisado por ele antes de falecer. Mesmo assim não se nota irregularidades na prosa, que é absolutamente fluída. Talvez um pouco menos de brilho.
É uma obra que, mais do que atual, é eterna, pois debate a velha dualidade entre a simplicidade e a sofisticação. De um lado, as Serras, o interior, com seu tempo calmo e sua realidade “pé no chão”. Do outro, a Cidade, as metrópoles, cosmopolitas, com suas máquinas, suas facilidades e… Suas fantasias. Este “combate” é perfeitamente narrado pelo olhar tendencioso de José Fernandes, o narrador, amigo de Jacinto. O primeiro sempre terá uma preferência pelas Serras, e ao longo da obra Jacinto passará, de um entusiasta das cidades, para um admirador do interior. Tudo conduzido com um fino humor, com uma elegância de artista pleno. As cenas memoráveis das máquinas inúteis de Jacinto, de seus sistemas complexos, de seu gradual aborrecimento, até seu primeiro jantar “serrano”, brutal, objetivo, real… Tudo isso ganha novo encanto em tempos de tanta virtualidade e tantos acessórios e aplicativos.
O ritmo, lógico, não é de um thriller de ação, e leitores mais ansiosos podem sofrer. Mas se tiverem calma e um pouco de paciência (ou seja, se tiverem um pouco mais de Serra do que de Cidade) podem se deliciar com esta obra.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Perdidos em Shangri-la - Mitchell Zuckoff

Perdidos em Shangri-la
Mitchell Zuckoff
Ed. Bertrand Brasil
ISBN: 9788528616453

Não se pode julgar um livro pela capa, o que é a sorte deste livro. A capa é muito desastrada: tem duas frases de efeito absolutamente sensacionalistas, a saber “uma história real de sobrevivência e aventuras” e “a mais incrível missão de resgate da segunda guerra mundial”. Nitidamente quiseram pegar uma “carona” no sucesso de livros sobre a segunda guerra e também nos livros de jornalistas sobre histórias reais. Passa, no entanto, impressão de livro caça-níquel e oportunista. A imagem da capa também é literal, quase um resumo: no fundo, o mapa do lugar do acidente. Recortado, um avião do exército. E abaixo, a foto dos sobreviventes com os nativos do lugar. Quase que você não precisa comprar o livro.
Mas eu comprei, aliás comprei numa promoção em que o preço caiu de R$58,00 para R$2,00, isso mesmo, dois reais. Impossível não comprar. Comprei.
A história, que já praticamente conhecemos, é simples: no fim da segunda guerra, em uma longínqua base do exército americano, durante um vôo recreativo, o avião cai num vale até então pouco acessado. Apenas quatro sobrevivem e vão enfrentar todo tipo de dificuldade para se manter e para travar contato com os nativos. Enquanto isso, o exército precisa descobrir uma forma para tirar eles de lá.
Verdade seja dita: a pesquisa histórica por trás do livro é bem feita e bem amarrada. Conta a história do vale desde que foi descoberto pelos ocidentais até os desdobramentos do resgate. Também resgata documentos e fotos para compor melhor como se deu a tragédia e o resgate. Mas a narrativa não seduz, não cativa, não empolga. A impressão é que o autor não se decidiu se iria abordar sobre o enfoque técnico da logística ou sobre o enfoque humano, e acabou ficando no mata-burro. Não é um livro ruim, e por dois reais (!!!) certamente vale comprar e ler, mas sem grandes pretensões.
As fotos ao longo do livro são bastante mal impressas.

segunda-feira, 30 de março de 2015

Musashi - Eiji Yoshikawa

Musashi
Eiji Yoshikawa
Ed. Estação Liberdade
ISBN: 9788574481500


Não conheço praticamente nada sobre a cultura ou, principalmente, literatura japonesa. Esta coleção em três volumes, por exemplo, eu jamais teria comprado, mas como ganhei, acabei lendo e gostei muito.
É, antes de mais nada, um “romance de formação” (se preferir pode usar o adorável termo em alemão “bildungsroman”), ou seja, vamos acompanhar a trajetória da personagem e seu amadurecimento. Exemplo clássico é o Werther de Goethe.
A narrativa começa abruptamente, lançando o leitor em meio aos destroços de uma terrível batalha, da qual Musashi, ainda muito jovem, é sobrevivente do exército derrotado. E a partir daí vamos acompanhando seu desenvolvimento de jovem agressivo, inconsequente e brutal em um homem consciente, estruturado e filosófico.
Algo que se nota imediatamente é a estrutura do romance: capítulos curtos, dinâmicos, que oscilam entre drama, ação, humor. Não é à toa: publicado originalmente em um grande jornal japonês, tem o formato e características típicas de folhetim (sem tom pejorativo!). Isso explica tantas idas e vindas das personagens, que mudam às vezes muito abruptamente de temperamento, e que ocasionalmente uma sub-trama, que ocupou diversos capítulos, simplesmente suma sem deixar traços.
Outro traço que causa espanto é o tempo. Em momentos dramáticos, abruptamente, o próximo capítulo começa três anos depois, sem nenhum encadeamento com a história até então, e algumas questões centrais e dramáticas são resolvidas via rolo compressor - como o caso da captura de Otsu por Matahachi.
Em alguns momentos o tom se torna demasiado moralista ou artificial, e conforme Musashi amadurece a ação vai se tornando mais escassa e ganhando tom mais filosófico. Não é uma troca ruim, e o assunto é sempre muito bem conduzido.
Ocasionalmente temos a impressão que eventos muito importantes são relatas de forma muito sucinta, e que coisas desimportantes são esticadas ao máximo.
É importante notar que muitas destas personagens realmente existiram e que, de forma geral, o livro se apoia sobre fatos verdadeiros, mas deixa muito espaço para o romance e dramatização. Digamos que os ossos são reais, mas os músculos, a carne e principalmente a pele é fantasia.
A minha edição vem numa caixa com três volumes com ótimo projeto gráfico e um encarte com algumas ilustrações japonesas em Ukiyo-e sobre MUsashi. O encarte é bem interessante, falando brevemente sobre a representação visual de Musashi, e as imagens são muito bem impressas, muito belas. Já a caixa deixa a desejar: não é encorpada e a cola solta facilmente, a minha por exemplo já descolou uma parte.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Ele está de volta - Timur Vermes

Ele está de volta
Timur Vermes
Ed. intrínseca
ISBN: 9788580575293

É sempre difícil tratar o tema “Hitler” sem cair nos clichês ou apelações de costume, especialmente nos últimos tempos quando a febre sensacionalista acerca da Segunda Guerra cresceu bastante.
Logo de cara, o livro de Vermes cria a dúvida com sua capa criativa, onde temos o cabelo característico de Hitler e o título “Ele está de volta” formando o característico bigode. Ok, por um lado vemos que é uma referência à Hitler mas é bem sutil e inteligente - felizmente fugiram de cafonices como fotos ou coisas do gênero.
A idéia do livro é simples: sem explicações ou lógica, Hitler acorda jogado num terreno baldio em Berlim, no começo dos anos 2000. E tem pressa em “continuar seu trabalho”. O autor tem inteligência para conduzir bem o assunto e, aos poucos, mostra questões polêmicas sob uma luz inesperada, que colocam em xeque muitas idéias tidas como progressistas ou democráticas.
O mais incrível: consegue, com isso, escrever um livro francamente engraçado e divertido. Foge do estereótipo de um monstro bestial, desumano, mas expõe o tempo todo, da forma mais dolorosa, que Hitler não foi um louco homicida, mas sim um homem capaz de entender, sintetizar e representar anseios populares - e, lógico, dar respostas muito “questionáveis” a esses anseios. Tomado por um ator cômico que estaria interpretando Hitler, expõe também de forma contundente a falta de senso crítico, liderança e mesmo de inteligência da sociedade.
Fique claro: não é um livro nazista. Mas é um livro que tem a coragem de, ao jogar Hitler em nossos tempos, mostrar que talvez você, sem nunca ter percebido, também tem algo de Hitler em você. E faz isso de forma sutil, dolorosa e inteligente.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

A teoria de tudo - James Marsh

A teoria de tudo
James Marsh
Lançamento: 2015
Título original: The Theory of Everything


Um filme surpreendente em vários aspectos.
Em primeiro lugar, quem pretende conhecer mais sobre o trabalho científico de Hawking vai se decepcionar: suas descobertas são sim mostradas mas como pano de fundo, sem aprofundamentos. O que esta biografia pretende é, mais que tudo, mostrar o lado pessoal da vida do físico e de sua esposa Jane, que tem enorme importância na trama - é injusto falar que é uma biografia de Hawking, o correto seria chamar de uma biografia do casal. E isso não é à toa: o filme é baseado em livro escrito por Jane.
Todos conhecem a terrível e degenerativa doença que aflige Hawking, mas o filme consegue algo muito legal ao mostrar que, mesmo com esta doença, ele não é um “coitado” ou inválido. Uma abordagem muito bacana que foge do clichê da pessoa genial vitimada (e limitada) por uma doença horrenda. Ao contrário, ele é bem humano, com apetite sexual, senso de humor, um tanto manipulador, e até mesmo um pouco mulherengo, que ao longo da vida acaba “abafando” a esposa por ser sempre o centro das atenções, o grande gênio, etc.
E daí temos o outro lado: Jane aos poucos vai se tornando uma sombra, inexpressiva e infeliz, quase somente uma cuidadora impessoal, até conhecer o corista da Igreja que lhe devolve, acima de tudo, a existência e a personalidade. O diálogo final dela com a “secretária” de Hawking é revelador, quando a “novata” se derrama em elogios e ela já não aguenta mais a ladainha. Não são emoções fáceis, pois todas as “personagens” tem dramas fortes e muitas motivações, e o filme é bem conduzido, com bom ritmo.
Tolstoi tem a manjada frase que todas as famílias felizes são iguais, mas as infelizes o são cada uma à sua maneira. O diretor do filme certamente sabe disso. Prova é que adotou uma estética onde todos os “momentos felizes” de Jane com Hawking são simulações de gravações antigas e granuladas, bem breves. Este recurso também serve para pular grandes espaços de tempo. A idéia é legal, mas em alguns momentos os efeitos ficaram um pouco “instagram” demais. O contra deste efeito é que acabamos tendo uma visão talvez nebulosa demais, como se eles nunca tivessem tido experiências alegres e felizes ao longo da vida.
No fim e ao cabo, temos um alegre “happy end”, surpreendente se lembrarmos serem pessoas reais.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Brasília - Marcel Gautherot

Brasília
Marcel Gautherot
Ed. Instituto Moreira Salles
ISBN: 9788586707513

Belíssima compilação de várias das icônicas fotos de Marcel Gautherot sobre a construção de Brasília. Edição muito bem cuidada, com ótima qualidade gráfica.
As fotos de Gautherot são mesmo impressionantes, captando bem a monumentalidade das obras, o espírito progressista do momento e mesmo as contradições já latentes desde o princípio.
Para quem gosta de fotografia e/ou arquitetura, imperdível. Ainda traz diversas citações e um ótimo ensaio de Kenneth Frampton que ajudam na compreensão.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

A Boa mentira - Philippe Falardeau

A Boa mentira
Philippe Falardeau
Lançamento: 2014
Título original: The Good Lie

Um filme bem legal, que narra a trajetória de uma família de refugiados da Guerra do Sudão. Em resumo, o filme começa quando eles são crianças e vivem numa tribo, até serem expulsos pela guerra e migrarem à pé, se escondendo dos soldados, até o Quênia - este começo é certamente a parte mais pesada e violenta, mas mais pelo lado emocional do que pelo visual, ou seja, não é um filme apelativo. Após alcançarem o acampamento, conseguem entrar num programa de migração para os EUA.
Evidentemente o foco do filme é o choque de culturas, de pessoas que viveram a vida inteira uma vida de privações e instabilidade, jogadas numa sociedade de consumo onde tudo é descartável e barato. Ao mesmo tempo, conforme a trama se desenrola, vemos que todos tem suas mágoas e perdas, seja na guerra no Sudão, seja na vida comum dos EUA. As personagens, verdade seja dita, não são muito complexas, chegam quase a ser caricatas, mas o final é inteligente e surpreende.
Não é um filme muito profundo, mas vai um passo além do óbvio, então pode ser uma boa pedida.

sábado, 20 de dezembro de 2014

Os cadernos de Dom Rigoberto - Mario Vargas Llosa

Os cadernos de Dom Rigoberto
Mario Vargas Llosa
Ed. Companhia das Letras
ISBN: 857164697X

Livro muito bom e bem pesado. Um tanto perturbador mas atraente, como um abismo. Jogos sexuais, fetiches, arte, pedofilia… MAs tudo muito bem amarrado, coerente, coeso.
A trama não é apresentada de forma linear, mas intercalando episódios e cartas, o que nos permite, aos poucos, ir construindo a história, de início de forma confusa, até irmos entendendo melhor e juntar todas as peças desta criativa, ousada e obscura trama.
Certamente um de meus livros prediletos.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

As diabruras de Quick e Flupke vol. 1 - Hergé

As diabruras de Quick e Flupke vol. 1
Hergé
Ed. GloboLivros
ISBN: 9788525054173


Bom, logo de cara preciso dizer que sou um grande fã do Hergé. Foi uma surpresa ver este livro nas livrarias, parabéns à GloboLivros!
A impressão é ótima, muito bem feito e bonito, nos moldes dos antigos livros do Tintin, até a fonte foi mantida. Excelente.
A única coisa que ficou faltando foi alguma apresentação sobre a obra, contextualizando um pouco.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Ana Karênina - Tolstói

Ana Karênina
Tolstói
Ed. Nova Cultural
ISBN: 8513010979


Resolvi reler este clássico. É dividido em vários “sublivros”.
Ao contrário do que o título indica, o livro não traça apenas a história de Ana Karênina, mas sim de toda a sociedade ao seu redor. Por um lado, isso não é um problema: todas as personagens são bem construídas e tem tramas e sub-tramas instigantes, que se alternam. Mas o livro parece querer falar sobre todas as coisas do mundo, desde a guerra, a questão feudal, religião, a fidelidade, o funcionalismo, etc… Isso torna a leitura em alguns momentos, digamos, difusa e cansativa. O último livro, dedicado quase exclusivamente à questões religiosas de Liêvin, para mim é francamente chato. Porém, isso faz sentido quando lembramos que originalmente era publicado em fascículos no jornal, ou seja, várias tramas e personagens tinham mais chance de atrair mais leitores e manter a coisa andando. Isso é bem claro.
Mas é preciso ver a obra também dentro de seu contexto histórico, onde deveria ser bastante chocante, e os dramas e dilemas das personagens são ainda angustiantes.
Uma coisa que sempre me perturba em romances russos é a incrível prodigalidade com os nomes. Uma mesma pessoa tem três nomes, ocasionalmente um título, sendo que cada um destes nomes tem um diminutivo carinhoso, uma abreviação, uma contração pejorativa, e um tratamento formal. Quase sinto necessidade de ir anotando quem é quem.
A história é bem conhecida, e a wikipédia tem um ótimo resumão.
É um livro muito bom embora ocasionalmente seja cansativo e tenha um tom um tanto artificial e alegórico.

sábado, 13 de setembro de 2014

Eu me lembro, sim, eu me lembro - Marcello Mastroiani

Eu me lembro, sim, eu me lembro
Marcello Mastroiani
Ed. DBA
ISBN: 8572341498

Sou um grande admirador deste ator. O livro é uma espécie de “auto-biografia sem compromisso”. O livro é composto de pequenas memórias recolhidas em entrevistas nos intervalos da gravação de Viagem ao Início do Mundo. Não estão organizados em ordem cronológica nem se propõem a cumprir todos os aspectos da carreira do ator.
Um pode achar isso superficial, outro leve. Depende do ponto de vista. Não é certamente uma obra acadêmica, diria que é um livro bom para levar numa viagem à praia, com capítulos curtinhos e que não se ligam entre si.
As historietas são interessantes e falam bastante sobre o cinema italiano. É como um bate-papo informal com Marcello. E isso, para quem gosta do ator, já é até demais!

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

O Tambor - Günter Grass

O Tambor
Günter Grass
Ed. Nova Fronteira
ISBN: 8520910327


Um livro marcante e polêmico, que transita numa espécie de realismo fantástico macabro e circense. A personagem principal, Oskar, vai nos relatar sua vida, numa espécie de releitura ou sátira dos grandes “romance de formação” alemães. Mas desde o princípio ele é onisciente e absolutamente irônico, tanto que ao nascer já traça o plano de não crescer mais depois de três anos.
Não vou me alongar no enredo. A história se passa na Europa, logo após o fim da primeira guerra e até depois da segunda. Descrições diretas, pervertidas e até mesmo grosseiras de sexo abundam pela obra inteira. Isso incomodou alguns, mas hoje se tornou algo até banal.
É um livro grande, a vem da verdade são três livros reunidos em um único tomo imenso, decisão acertada da Nova Fronteira que sabe que séries deste tipo não costumam passar do segundo volume aqui no Brasil. Ser grande não é um problema, o problema é que a obra é bastante irregular. Tem momentos geniais e sublimes, mas que são um tanto ofuscados por outros plenamente desnecessários e cafonas. Alguns trechos se estendem sem nenhuma necessidade, e confesso que ocasionalente pulava alguns parágrafos - talvez até páginas.
Ao mesmo tempo, consegue fazer algo raro: nos permite entender melhor a relação da sociedade civil com o nazismo sem demagogia ou falsidade tão ao gosto dos romances heróicos. Aqui não há herói, mas sim um punhado de pessoas comuns simplesmente tentando sobreviver, e um manipulador nato, Oskar, transitando nisso. E vamos acompanhar estas pessoas antes, durante e depois destes eventos tão terríveis.
Mas não é, de forma alguma, um “livro sobre a Segunda Guerra”. É muito mais amplo. Pode ser visto como um livro sobre o século XX. Ou talvez seja apenas um livro sobre um tambor chamado Oskar.
De toda forma, é um livro que merece ser lido, ou relido. Parece que Grass anda meio esquecido, mas este livro é uma boa reaproximação.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Deluxe - como o luxo perdeu seu brilho - Dana Thomas

Deluxe - como o luxo perdeu seu brilho
Dana Thomas
Ed. Campus
ISBN: 9788535228472


Livro muito interessante. A autora traça um breve panorama do mercado de luxo no século XX, não tanto como pesquisa documental e histórica, mas principalmente através de entrevistas e observações.
Por um lado, isso confere uma objetividade interessante: ela entrevista os donos dos grandes grupos de moda, observa tendências ao redor do mundo, conversa com fornecedores… Mas isto tem um contra: falta rigor de pesquisa. Assim, muitas coisas acabam ficando na base do “achismo” - para os brasileiros isso fica claro na última parte, onde ela fala sobre a Daslu, com generalizações do tipo “todos em São Paulo tem um carro blindado” ou “todas as brasileiras são antenadas em moda”.
De qualquer forma, o mais importante está lá: é entender como funciona, se estrutura e para onde vai o mercado do luxo. Discute com ótimo senso crítico o papel das bolsas, dos perfumes e dos artigos miúdos, como muitas marcas deixaram de se preocupar em ser sinônimo de produtos de qualidade para se tornar sinônimo de um estilo de vida, como é a relação com a China, tanto no viés de consumo como de produção… Enfim, uma ótima vista dos bastidores do setor.
O projeto gráfico do livro é bem resolvido. Fotos preto-e-branco mal-impressas abrem cada capítulo.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Estamos todos bem - Giuseppe Tornatore

Estamos todos bem
Giuseppe Tornatore
Lançamento: 1990
Título original: Stano tutti benne

Lindo drama italiano. A personagem principal é um idoso, interpretado magistralmente por Marcello Mastroianni. Em seu aniversário, tenta reunir os vários filhos, que moram cada um em uma região diferente da Itália. Como eles não podem - sempre ocupados - ele decide ir visitar um por um, de surpresa. E, lógico, descobre que nem tudo o que eles lhe contam sobre suas vidas é verdade.
O filme é muito bonito, tanto pelo drama humano, da relação entre um pai exigente e filhos que são pessoas comuns como nós, como por mostrar um lado da Itália que raramente aparece em produções de outros países: pobreza, engarrafamentos, trens sujos, pessoas infelizes…
Mas não se engane, não se trata de um “filme desgraça”. O título já dá a dica, mesmo com todos os contras, as dificuldades e asperezas da vida real, estão todos bem, levando a vida como podem. Inclusive o senhor idoso, cujo papel também é discutido de forma original, especialmente nas belas cenas em que flerta com uma signora, durante uma excursão.
É muito recomendado, pena que é difícil de achar...

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Meu Passado me Condena - o Filme - Julia Rezende

Meu Passado me Condena - o Filme
Julia Rezende
Lançamento: 2013

É cada vez mais comum vermos tudo virar franquia, muitas vezes sem critério. Um publicitário talvez diria que isso é a apoteoso do branding. Eu acho que na maioria das vezes é só caça-níquel. Porque estou falando isso?
Bem, “meu passado me condena - o filme” é um filho direto do seriado homônimo, com Fábio Porchat e Miá Mello. A história é a mesma: um casal que se casou após namorar pouco viaja em lua-de-mel e descobre coisas novas e nem sempre agradáveis sobre o outro. O seriado era bem divertido, com ótimas sacadas e piadas. O filme também é divertido, mas tem alguns poréns.
A primeira coisa que acho ilógica é que o filme ocorre como se o seriado não existisse, uma espécie de “universo paralelo”. Isso por um lado parece falta de criatividade, fizeram a mesma coisa só mudando o cenário, de uma pousada para um cruzeiro. É pena porque os personagens principais são interessantes e, a meu ver, poderiam ter se desenvolvido em situações novas, ao invés de só reciclarem a mesma trama.
Alguns momentos são realmente muito bem bolados, como o amigo “Cabeça”, que dá uma nova graça e ânimo ao filme. Porém, para mim, muitos momentos são esticados demais, acabam ficando cansativos.
Me parece que o filme funciona muito melhor quando é nitidamente debochado, como quando Porchat entra em depressão com a fantasia ridícula de barquinho. Já quando tentam dar um tom sério e profundo, acaba ficando um pouco pretensioso, como ao insistir na dicotomia entre “o rico manipulador infeliz e o pobre bobão feliz”, ou nas crises da Miá, que merecia ter brilhado mais. Aliás, o casal manipulador que era dono da pousada também acabou ficando meio perdido no navio. Podiam ter sido melhor explorados talvez.
De qualquer forma, é uma comédia divertida, que cairá bem em momentos descontraídos de entretenimento.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Grande Hotel Budapeste - Wes Anderson

Grande Hotel Budapeste
Wes Anderson
Lançamento: 2014


A primeira coisa que chama a atenção no filme é a direção de arte. Desde a primeira cena, fica claro que tudo foi tratado primorosamente: cenários, figurinos, adereços, tudo é perfeitamente coerente, e dentro do espírito do filme. E feito com um capricho incrível. Dá vontade de pausar o filme e ficar olhando os ambientes, os detalhes…
E isso nos leva à primeira coisa que me incomodou: o ritmo oscila entre ação frenética e momentos sem timing que se tornam cansativos.
Isso aliás ocorre com o próprio enredo: parece que quiseram colocar tantas mudanças de cenário e eventos que acabou virando uma montanha-russa. Chega um momento em que quase desistimos de entender a trama, especialmente mais para o fim.
Não que isso seja um problema: o filme transita o tempo todo dentro de um espírito lúdico, histriônico, quase canastrão, flertando com um pastelão mesmo. Portanto, se perder alguns detalhes, sem problemas, afinal a história não precisa e nem quer ser coerente e densa, ao contrário. Mas fica aquela vontade de ter passeado com mais calma por aqueles ambientes, de talvez ter tido mais destaque as extravagâncias de uma época perdida do que cenas de ação quase genéricas e tentaivas de explicar uma trama que, bem, poderia ter se resumido à metade.
De qualquer forma, Grande Hotel Budapeste é um delicioso sopro de ar fresco e criativo na imensidão de filmes pasteurizados. É uma estética diferente e ousada, perfeitamente executada. E acaba sendo quase uma breve história da Europa na primeira metade do século XX, com um mundo de regras cavalheirescas e sólidas sendo engolido pela barbárie e instabilidade. Apesar de se passar entre a primeira e a segunda guerra, a cena do tiroteio no hotel, onde, naquele ambiente suntuoso e codificado, subitamente todos estão atirando em todos sem nenhum critério, talvez seja uma das melhores metáforas da primeira guerra, não em termos políticos, mas em termos culturais.
Muito bom, merece ser assistido com atenção, bom humor e, principalmente, mente aberta.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Cadernos de Viagem à China - Roland Barthes

Cadernos de Viagem à China
Roland Barthes
Ed. Martins Fontes
ISBN: 9788578275556


Comprei este livro sem saber quem era Roland Barthes, de quem só tinha ouvido falar vagamente. Como ele vem num invólucro de plástico (o livro, não o Roland Barthes) a única informação que tive antes da compra foi um mini-trecho (quatro linhas) do texto reflexivo. Entendo que esta pode ser uma coisa elegante ou sofisticada mas na vida real dificulta, pois queremos mais informações sobre a obra e não temos. No caso, acabei arriscando, e de fato o trechinho não passava um retrato da obra.
E qual é a desse livro? São as anotações brutas de Barthes de sua viagem, patrocinada por um jornal, à China comunista em 1974. Parece interessante, e de fato é. Mas como disse, são anotações “brutas” no sentido de não ter um trabalho de edição, são notas jogadas em fluxo, em jatos, muitas vezes sem nexo, outras repetidas, ou seja, é um material que vai interessar mais pesquisadores aprofundados em Barthes que o leitor em geral como eu.
Além disso, por serem notas de trabalho, não tem preocupação em entreter um leitor ou relatar fatos pitorescos. Fica nítido, aliás, o desinteresse e apatia frente à China.
E isso é compreensível, pois a regra é a lavagem cerebral. Em todos os lugares que vão, ouvem os mesmos discursos, as mesmas falas, as mesmas frases feitas, ad infinitum. Por um lado isso é legal porque vemos como esta lavagem cerebral começa a afetar o próprio Barthes, com constantes enxaquecas, cansaço e desgaste.
Para quem se interessa pela obra de Barthes ou pela China, pode ser interessante. Mas é cunho bem específico.